Investigação da cadeia produtiva da maçã
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O cultivo de maçãs no Sul do Brasil depende da força de trabalho de milhares de migrantes brasileiros e estrangeiros. Anualmente, eles percorrem distâncias de até 4 mil quilômetros até os pomares de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Sem renda fixa em seus locais de origem, alguns trabalhadores chegam a cruzar o país de ônibus até quatro vezes ao ano, no primeiro e último trimestre, submetendo-se a jornadas exaustivas e condições degradantes.
O Brasil está entre os 15 maiores produtores mundiais de maçãs e é um dos 10 maiores exportadores.
A Papel Social percorreu os principais polos de cultivo da fruta no país, assim como os territórios de origem e locais de arregimentação de trabalhadores migrantes. A pesquisa Rotas do Trabalho Escravo detalha as dinâmicas de recrutamento e contratação nesta cadeia produtiva, incluindo casos de aliciamento para trabalho análogo à escravidão, transporte clandestino e alojamentos precários.
Em paralelo ao estudo das rotas, a equipe produziu um documentário a ser lançado em 2026 que retrata as dificuldades enfrentadas pelos migrantes em São Joaquim (SC) e o impacto de suas ausências nas famílias que permanecem nos municípios de origem, como Centro Novo do Maranhão (MA).
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Rotas da maçã
Os principais fluxos migratórios identificados têm origem no Maranhão e em Mato Grosso do Sul e se consolidaram a partir de 2009. A maioria dos trabalhadores parte de comunidades vulneráveis, sem perspectivas de emprego e acesso limitado a políticas públicas. São moradores de periferias urbanas, pequenos povoados rurais, comunidades quilombolas e aldeias indígenas que se veem presos em ciclos de escassez e informalidade.
No Maranhão, destacam-se as microrregiões da Baixada Maranhense, Gurupi e Pindaré; e, em Mato Grosso do Sul, Dourados, Iguatemi e Aquidauana. As microrregiões de destino são Vacaria (RS), Campos de Lages (SC) e Joaçaba (SC). Durante os estudos de campo, também foram identificados fluxos oriundos de países vizinhos da América do Sul e de todos os estados do Nordeste.
Migrantes maranhenses e nordestinos viajam frequentemente sem garantia de contratação. Eles atravessam o país em ônibus de linha ou clandestinos com passagens muitas vezes compradas em supostas agências de turismo. As rodoviárias dos municípios produtores de maçã são pontos estratégicos de aliciamento e de concentração de trabalhadores em situação de rua, à mercê do frio e dos gatos.
Em Mato Grosso do Sul, o recrutamento de indígenas Guarani, Kaiowá e Terena acontece de forma sistemática há mais de 15 anos, com queixas recorrentes de racismo e omissão do poder público. A falta de alternativas de renda, somada à violência territorial e à não demarcação de terras, torna dezenas de comunidades dependentes do trabalho sazonal na maçã.
Fluxograma da maçã
Nos pomares e alojamentos, há episódios frequentes de superlotação, comida estragada, jornadas exaustivas, falta de equipamentos de proteção, acidentes graves, negligência médica, conflitos entre trabalhadores e até casos de tortura e violência policial.
A pesquisa revela que a cadeia produtiva da maçã depende estruturalmente desse fluxo de trabalhadores migrantes em situação de vulnerabilidade. Enquanto grandes empresas se beneficiam da mão de obra barata, o recrutamento informal camufla práticas que podem configurar tráfico de pessoas e trabalho análogo à escravidão.
Informações-chave
Trabalhadores migrantes, especialmente negros e indígenas, são aliciados sistematicamente em regiões vulneráveis do país e submetidos a condições degradantes, jornadas exaustivas e baixos salários. Entre as consequências mais graves, estão casos de desaparecimentos e mortes de migrantes indígenas e quilombolas nas regiões produtoras de maçã.
A arregimentação de mão de obra temporária para os pomares pode envolver gatos, agências de transporte clandestino, recrutadores do quadro fixo das empresas, ou ainda ocorrer por intermédio de órgãos públicos. Há ainda trabalhadores que se deslocam individualmente, por conta própria, e ficam desamparados nas ruas e rodoviárias dos municípios de destino enquanto aguardam uma oportunidade.
Os trabalhadores enfrentam viagens longas e tortuosas, em ônibus de linha regular, clandestinos, ou até mesmo à pé. Nas regiões produtoras de maçã, passam por enormes dificuldades para retornar para casa. Muitas vezes, o empregador não garante a passagem de volta, obrigando o migrante a recorrer a doações, empréstimos ou à assistência social do município.
Irregularidades e violações de direitos humanos foram identificadas tanto em situações de transporte clandestino e trabalho informal quanto em contratações com carteira assinada.
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![“Tem que ir [para a colheita de maçã] para poder comprar as coisas”, afirma Dorginho Gonçoareva, 32, de Dourados (MS). Aos 12, ele começou a trabalhar no plantio e corte de cana-de-açúcar no interior do estado, onde enfrentou diversas violações de direitos. A mecanização dos canaviais coincidiu com o início do recrutamento de indígenas para os pomares, mas não significou uma melhora na renda e nas condições de trabalho. Foto: Marques Casara](https://papelsocial-bucket2.s3.us-east-1.amazonaws.com/b1b71214-4d05-44d7-95bf-0253561453f7.jpg)




