
Rotas do Trabalho Escravo
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Esta página apresenta os resultados de 11 meses de pesquisa sobre as rotas migratórias percorridas por trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em diferentes atividades produtivas.
Para esta investigação, a Papel Social desenvolveu uma metodologia própria, baseada na leitura de relatórios de fiscalização trabalhista, publicações com dados qualificados e estudos de campo.
Após cruzar informações sobre locais de residência e resgate das vítimas, nossa equipe percorreu as rodovias mais utilizadas para deslocamento de mão de obra para cultivos de café (Minas Gerais), cana-de-açúcar (Goiás, Minas Gerais e São Paulo), maçã (Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e fazendas de pecuária bovina (Pará).
Entre 2024 e 2025, viajamos por mais de 10 mil km de estradas. Conversamos com intermediadores de mão de obra, funcionários de empresas clandestinas de transporte, agentes públicos, pesquisadores e, principalmente, com trabalhadores migrantes e suas famílias.
O mapa a seguir contém as rotas migratórias identificadas e os depoimentos mais relevantes obtidos em campo. O objetivo é subsidiar futuras investigações e fortalecer ações de prevenção, repressão e acolhimento das vítimas de tráfico de pessoas e trabalho escravo.
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Informações-chave
Cana-de-açúcar
Maranhão e Piauí são os estados que mais fornecem mão de obra escrava para o plantio e corte de cana-de-açúcar no Sudeste e Centro-Oeste do país. O epicentro da migração é uma região conhecida como Baixada Maranhense. De janeiro a maio, as roças alagam e inviabilizam cultivos de subsistência, forçando os trabalhadores a obter renda em outros estados. É justamente nesse período que aumenta a demanda por mão de obra nos canaviais de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. O fluxo mais intenso de retorno à Baixada se dá em maio, ao fim da estação chuvosa.
Os trabalhadores geralmente se deslocam em ônibus clandestinos, vendidos por falsas agências de turismo. As passagens custam até 40% menos que em uma empresa tradicional. Outra vantagem é não fazer baldeações nem precisar se deslocar para um município de grande porte, onde há linhas regulares de ônibus em direção ao Sudeste e Centro-Oeste. A principal crítica dos trabalhadores é a condição precária dos veículos, que estão mais sujeitos a acidentes e problemas técnicos no caminho.
Embora a mecanização dos cultivos tenha avançado na última década, várias usinas preferem que ao menos parte do plantio e do corte da cana ocorram manualmente, o que garante melhor qualidade das mudas. Nesses casos, elas compram a produção de parceiros, terceiros ou fornecedores, e nem sempre monitoram as condições de arregimentação, transporte, alojamento e trabalho ao longo da cadeia produtiva.
Pernambuco, Bahia e Alagoas completam a lista de estados que aparecem recorrentemente como local de origem dos trabalhadores da cana-de-açúcar resgatados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) nos últimos cinco anos. O setor foi o campeão de resgates em 2022, com 362 vítimas de trabalho análogo à escravidão, geralmente caracterizado por condições degradantes dos alojamentos.
A pesquisa sobre a cadeia produtiva da cana-de-açúcar, que resultou no mapa acima, considerou dados de trabalhadores resgatados entre 2018 e 2024 nos estados de Goiás, Minas Gerais e São Paulo.
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Café
O deslocamento de trabalhadores geralmente se dá a partir de regiões assoladas pela seca, com poucas oportunidades de trabalho, como o Norte de Minas Gerais e o Semiárido baiano, em direção a regiões com solo fértil, equilíbrio pluvial e vagas de emprego temporárias, como o Sul de Minas.
A colheita do café, de maio a agosto, coincide com o período de seca mais severa no Centro-Sul e Centro-Norte da Bahia. Trabalhadores rurais dessas regiões se veem obrigados a deixar suas terras improdutivas para sustentar a família. Por falta de alternativas de renda, ficam vulneráveis ao aliciamento para fins de trabalho escravo e outras violações de direitos.
A migração para o café deixa comunidades inteiras desfalcadas de homens nos municípios de origem, sobrecarregando as mulheres que ficam. Sem os maridos e os filhos maiores, elas cuidam sozinhas das crianças, da roça, dos animais e da segurança dos vizinhos. Em alguns lugares, elas são chamadas de “viúvas de homem vivo”.
O transporte ilegal de trabalhadores migrantes do café é quase sempre feito em ônibus clandestinos ou em vans. Motoristas especializados no deslocamento para fazendas de café vão e voltam em dias pré-determinados, semanalmente, de pontos de partida historicamente conhecidos, como rodoviárias, postos de combustível, pousadas e bares.
Casos recentes de trabalho escravo tendem a se concentrar em fazendas com terrenos montanhosos e com mais de 40 mil pés, porque demandam colheita manual em grande volume. Em terrenos planos, há predomínio da mecanização e, portanto, menor demanda por trabalhadores braçais.
A pesquisa sobre a cadeia produtiva do café que resultou no mapa acima, considerou dados de trabalhadores resgatados entre 2018 e 2024 no estado de Minas Gerais.
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Pecuária
Entre 2013 e 2024, mais de 460 trabalhadores foram resgatados em fazendas paraenses cuja principal atividade é a pecuária bovina (CNAE 01512 – criação de bovinos). Os municípios de São Félix do Xingu e Novo Repartimento foram os recordistas de casos no período, cada um com mais de 70 vítimas resgatadas. Em seguida, aparecem Uruará (31 resgates), Xinguara e Tucumã (23 cada).
Trabalhadores são submetidos a condições análogas à escravidão na lida com o gado (vaqueiro), na derrubada de madeira, construção e manutenção de cercas e currais (cerqueiro); e no corte de capim para preparo de pasto para o gado (roço de juquira). Um mesmo trabalhador pode desempenhar as 3 tarefas ao mesmo tempo, tornando-se responsável por grandes extensões de terra.
Como as turmas são pequenas, é raro que um fazendeiro ou gato contrate um trabalhador sem conhecê-lo previamente, ou sem que ele tenha sido recomendado por terceiros. Essa relação de confiança costuma ser um requisito dos empregadores, que temem ter prejuízo financeiro ao confiar a um “estranho” a administração de centenas de cabeças de gado.
O Maranhão é o estado que mais fornece mão de obra para trabalhar em condições análogas à escravidão em fazendas de gado no Pará. A migração ocorre ao longo de todo ano e tem como ponto de partida 9 microrregiões diferentes, que abrangem todas as 5 mesorregiões do estado. Dentre os resgatados, há maior prevalência de trabalhadores oriundos das microrregiões de Pindaré (Oeste) e Baixada Maranhense (Norte).
À diferença das demais cadeias produtivas investigadas, ônibus clandestinos raramente são utilizados para transporte de trabalhadores da pecuária. O mais comum é que eles realizem a maior parte do deslocamento em ônibus de linha (com embarque em rodoviárias), ou ainda pela Estrada de Ferro Carajás (EFC), que conecta São Luís (MA) a Parauapebas (PA). Na parte final do trajeto, até as fazendas, os gatos ou fazendeiros costumam oferecer carona em veículo próprio – carros, motocicletas, ou mesmo na caçamba de caminhões.
Como muitos trabalhadores viajam por conta própria até as hospedagens que funcionam como locais de recrutamento ao longo da rota, a presença de gatos é menos preponderante nesta cadeia produtiva do que nas demais.
A pesquisa sobre a cadeia produtiva da pecuária bovina, que resultou no mapa acima, considerou dados de trabalhadores resgatados entre 2013 e 2024 no estado do Pará.
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pecuária
Pará
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Maçã
Os estados de origem com mais trabalhadores na colheita de maçãs são Maranhão e Mato Grosso do Sul. No Maranhão, as 3 principais microrregiões são Baixada Maranhense, Gurupi e Pindaré; em Mato Grosso do Sul, Dourados, Iguatemi e Aquidauana. As microrregiões de chegada são Vacaria, no Rio Grande do Sul, e Campos de Lages, Curitibanos e Joaçaba, em Santa Catarina.
Os fluxos mais recorrentes entre municípios são de Centro Novo do Maranhão (MA) para São Joaquim (SC); Monção (MA) para Fraiburgo (SC); e Amambai (MS) para Vacaria (RS). Os deslocamentos ocorrem com maior frequência no primeiro e no último trimestre do ano, para as etapas de colheita e raleio, respectivamente.
Durante os estudos de campo, também foram identificados fluxos de trabalhadores oriundos de países vizinhos da América do Sul e de todos os estados do Nordeste.
Entre as rodovias mais utilizadas estão a BR-010, entre Açailândia (MA) e Porto Franco (MA); a BR-116, de São Paulo (SP) a Lages (SC), passando por Curitiba (PR); e a BR-280, de Marmeleiro (PR) a Caçador (SC).
Os resgates de trabalho análogo à escravidão na cadeia produtiva da maçã evidenciam a ocorrência de aliciamento sistemático de mão de obra em regiões vulneráveis. Trabalhadores migrantes, especialmente negros e indígenas, são submetidos a condições degradantes, que incluem alojamentos precários, jornadas exaustivas e baixos salários. Entre as consequências mais graves do aliciamento, estão casos de desaparecimentos e mortes de migrantes indígenas e quilombolas nas regiões produtoras.
A arregimentação de mão de obra temporária para pomares de maçã ocorre de formas variadas. Pode envolver gatos, agências de transporte clandestino, recrutadores do quadro fixo das empresas, ou ainda ocorrer por intermédio de órgãos públicos. Há ainda trabalhadores que se deslocam individualmente, por conta própria, e ficam desamparados nas ruas e rodoviárias dos municípios de destino, à espera de uma oportunidade.
Irregularidades e violações de direitos humanos foram identificadas tanto em situações de transporte clandestino e trabalho informal quanto em contratações com carteira assinada.
Os trabalhadores enfrentam viagens longas e tortuosas, em ônibus de linha regular, clandestinos, ou até mesmo à pé. Nas regiões produtoras de maçã, passam por enormes dificuldades para retornar para casa. Muitas vezes, o empregador não garante a passagem de volta, obrigando o migrante a recorrer a doações, empréstimos ou à assistência social do município.
A migração para a cadeia da maçã alimenta ciclos de pobreza e exploração. O recrutamento ocorre prioritariamente em comunidades quilombolas, aldeias indígenas, pequenos povoados rurais e periferias urbanas. Mesmo submetidos a violações, muitos retornam aos pomares ano após ano, por falta de alternativas econômicas em suas regiões de origem.
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rotas
maçã
aliciamento
informalidade
agronegócio
fruticultura
Maranhão
Mato Grosso do Sul
Santa Catarina
Rio Grande do Sul
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Em breve: acesse o livro “Rotas do Trabalho Escravo”
Com mais de 300 páginas, o livro inédito detalha dados, descobertas e histórias da maior investigação sobre rotas migratórias da escravidão contemporânea no Brasil. O estudo revela e analisa as dinâmicas de recrutamento dos trabalhadores; vulnerabilidades socioeconômicas que impulsionam a migração; modalidades de transporte; rodovias e entroncamentos mais importantes; e condições de trabalho e moradia nos locais de destino.
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Pesquisa e reportagem
Daniel Giovanaz
Erick Gimenes
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Design
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